10 de maio de 2011 às 10:00h
Felipe Prestes, do Sul 21
Felipe Prestes, do Sul 21
A crise financeira dos países europeus é para o sociólogo português
Boaventura de Souza Santos prova de que o capitalismo está sem freios.
O estudioso vê a Europa perdendo sua “fortaleza social”, os ideais de
cidadania que marcaram o continente. “O capitalismo precisa de um
corretivo”, diz. Para Boaventura, este corretivo se chamava comunismo.
Segundo o acadêmico, foi o contraponto comunista que fez com que o
estado de bem-estar social prosperasse na Europa Ocidental. “Hoje,
vemos mais social-democracia no Brasil, que na Europa”.
Agora, o sociólogo ainda não vê o remédio certo para conter a retirada
de direitos sociais e o crescimento da intolerância. Mas fechou sua
palestra, diante de um plenário lotado na Assembleia Legislativa,
citando três palavras essenciais para qualquer “corretivo” que seja
aplicado ao capitalismo, não só na Europa, mas em todo o mundo.
“Democratizar, descolonizar e desmercadorizar”.
Relações extra-institucionais
Na palestra, que é parte do programa Destinos e Ações para o Rio
Grande, Boaventura de Souza Santos afirmou que a derrocada de um
modelo de compromisso na relação vertical entre estado e cidadão gera
também um descompromisso na relação horizontal cidadão-cidadão. Isto
explica, segundo ele, a derrocada das instituições. O sociólogo
destacou que as relações extra-institucionais ganham em nosso tempo
mais importância.
Isto se reflete, segundo o sociólogo, nas revoluções árabes atuais, em
que movimentos sociais e partidos não são protagonistas. Ele conta que
durante o Fórum Social Mundial deste ano, em Dacar, no Senegal, as
atenções acabaram voltadas para os rebeldes dos países árabes do
Magreb, mesmo que boa parte dos militantes destes países estivesse no
Fórum. “No Cairo se passavam coisas muito mais importantes que em
Dacar”.
Para Boaventura, as relações extra-institucionais também se manifestam
no modo com os Estados Unidos combatem seus inimigos, inclusive Osama
Bin Laden. O sociólogo defende que o líder da Al-Qaeda, por mais
hediondo que sejam os crimes que cometeu, deveria ser julgado pela
Corte Internacional, que, não por acaso, os EUA não ratificam. O
português também citou como exemplo de relações extra-institucionais a
prisão de Guantánamo. “Ali não vigora nenhum princípio do Direito”.
Violência
A derrocada das relações horizontais entre os cidadãos e entre estado
e cidadão se manifestam, para Boaventura, no crescimento da violência
em todo o mundo. Para o sociólogo esta violência crescente se
manifesta pela intolerância racial, de gênero, social e por orientação
sexual. A violência também está nas escolas, na repressão feita pelo
estado e no modo como o poder econômico consegue tirar a liberdade de
escolha dos trabalhadores. “Quando alguém tem o poder de veto sobre a
vida de outro, isto é fascismo”, disse.
Boaventura afirmou que, hoje, em Portugal o sistema financeira tenta
privatizar parte da saúde pública e da previdência. “Há um fascismo
financeiro”. O sociólogo não esqueceu dos problemas do Brasil, país
que destacou para apontar o que chama de apartheid social. “Há as
‘zonas selvagens’ nas cidades e as ‘zonas civilizadas’. (A polícia) se
comporta de forma totalmente diferente nas duas zonas. Os policiais
são capazes de ajudar um garotinho a atravessar a rua nas zonas
civilizadas. E dão porrada nos jovens nas favelas”. O acadêmico
afirmou que não há remédio conhecido para sanar os vários tipos de
violência descritos por ele. “Entretanto, já sabemos o que não
funciona: a repressão”.
Boaventura de Souza Santos afirmou que as discriminações racial,
étnica e social são sinais de que o colonialismo europeu ainda não
acabou totalmente. Disse ainda que os espaços públicos construídos
hoje em dia no mundo capitalista, como shopping centers e condomínios
fechados, não são democráticos. O sociólogo afirmou que para acabar
com a intolerância não basta apenas ser tolerante, coexistir: é
preciso conhecer o outro. “Tolerar é pouco. É preciso conhecer o
outro, enriquecer com ele”.
Neste sentido, o sociólogo ressaltou o fato de que as esquerdas
mundiais conseguiram vencer sua própria intolerância com outros
setores do mesmo campo. “Houve muito intolerância entre a própria
esquerda. Hoje, a esquerda é um mosaico. São peças que compõem uma
figura juntas, mas sem perder sua característica individual. Não temos
um modelo universal. Há várias contribuições, todas elas incompletas”.
Boaventura disse que os países da Europa precisam refundar suas
democracias. De acordo com ele, o poder econômico teme uma democracia
forte no continente. “São democracias sem democratas”. O sociólogo
prevê que as revoluções no norte da África podem ter eco na Europa
mediterrânea, em países como Grécia, Espanha e Portugal. “As duas
periferias da Europa – o Magreb e a Europa mediterrânea – são muito
ligadas”.
Sul 21

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